Akemi, minha prima de 10 anos de idade, segunda mais velha entre 4 irmãs. Com certeza a mais carinhosa, meiga e altruísta de todas.
Foi tão rápido. Um dia estávamos num shopping. Levava ela de cavalinho. Saía correndo com ela em minhas costas, mas nesse dia ela me pedia para ir devagar. Me pedia a todo momento para leva-la, pois estava cansada. Estranhei aquilo, mas não dei importância. Akemi só descia das minhas costas quando era vez de levar as irmãs.
Algumas semanas depois, minha tia à levava para uma clinica para examinar o cansaço que frequentemente ela sentia. A principio era uma gripe, depois achavam que era desde asma até caxumba.
Em questão de dias ela piorou e foi internada num hospital próximo. Sem resultados aparentes foi transferida para um outro hospital com as mais modernas e melhores equipamentos e condições. Descobriu-se que ela estava com uma doença muito rara e que atacava pessoas idosas. Um em milhões de idosos tem à chance de ter essa doença. Uma doença rara e nova. Foi descoberta à vinte e tantos anos atrás.
Num dia que à visitamos, não tinha ideia, mas acreditava que ainda iríamos brincar muito, mesmo ela ali deitada, tomando soro na UTI. Ela sorria e brincava. Tão pura, ingênua e gentil quanto uma criança poderia ser, presa naqueles montes de tubos injetando remédios em suas veias.
Minha tia foi fazer massagem nos braços dela, mas Akemi recusou dizendo: _Mãe! Você vem aqui todos os dias e ainda tem que cuidar da casa e das irmãs. Você que deve está cansada! Me dá sua mão pra mim fazer massagem em você.
Dentro das possibilidades de suas forças e da tala que segurava sua mão, Akemi massageou a mão da minha tia. No dia anterior ao aniversário da segunda mais nova das irmãs, Akemi pediu para ela não ir ao hospital visita-la e sim, comemorar o aniversário com bolo e ir em algum lugar como costumeiramente se fazia nesta família. Claro que o pedido não foi aceito e todos estavam no hospital.
Aquela visão otimista e alegre que a Akemi tinha, nos fazia acreditar que tudo estava bem e logo estaria em casa, então um mês se passou assim..
Num dia, numa visita... não sei explicar, mas um pânico e medo me preencheu. Ela estava ali, deitada na cama, entubada e em coma induzido. Meus tios não me disseram que ela estava em coma induzido. Talvez não conseguiram dizer.
Chorei...
Não podia acreditar naquela imagem em que as lágrimas insistiam em cegar. Respirei fundo e me aproximei ao lado dela. Peguei em seus dedos que era onde estava livre de tubos e esparadrapos. Beijei sua testa que era o único lugar onde a sonda me permitia tocar em seu rosto.
Chegando em casa chorei de novo e de novo e de novo. Meu tio teve de parar de trabalhar. Precisaria de pelo menos um responsável no hospital 24 horas por dia. O estado dela era critica e precisaria da autorização dos responsáveis para que os médicos fizessem qualquer coisa. Revesando, pelo menos uma pessoa dormia em algum canto no hospital. Não podia dormir com ela na UTI.
Os pulmões da Akemi estavam empedrando. Ela não sobreviveria sem a sonda. Pouco a pouco seus pulmões perdia a elasticidade.
Numa das visitas, peguei a Bíblia, abri numa página qualquer e li um trecho em que falava sobre a fé. De quando Cristo curou os enfermos. De quando ressuscitou a filha de um pai aflito. Rezei naquele momento em silêncio. Acreditei naquela minha prece. Antes de ir embora, falei ao ouvido da Akemi que eu tinha que ir embora. Pedi pra ela não desistir. Pedi pra ela continuar lutando e que ainda a levaria de cavalinho. Tenha fé.
Ao me despedir do meu tio falei do que li na Bíblia e repeti o que eu tinha dito para Akemi:
_Tenha fé tio. Tenha fé.Ao me despedir do meu tio falei do que li na Bíblia e repeti o que eu tinha dito para Akemi:
Meu tio segurou as lágrimas e engoliu seco. Tornei a repetir:
_Todos nós tendo a mesma fé, ela vai ficar bem. Ela sairá do hospital com vida. Tenha fé.
E naquela noite suas funções vitais haviam melhorado um pouco.
Na minha próxima visita, minha tia me empurrou a Bíblia em minhas mãos, como se eu lendo, a Akemi melhoraria. Li e rezei. Pedi para minha tia também ter fé. Lhe disse que toda a nossa fé unida faria Akemi melhorar. Não era somente a minha fé que iria salvá-la.
Mas a situação piorava. Um pulmão já não funcionava e o outro estava à 20%. Como ela não se alimentava, seus demais órgãos estavam atrofiando. Estava parando de urinar, assim não eliminava as toxinas do corpo. Seu coração aumentou muito de tamanho e passou a trabalhar em dobro para tentar manter aquele frágil sistema em funcionamento. A cada hora ela precisava de um medicamento para fazer funcionar uma coisa, trazendo complicações em outras.
O estado dela era tão critico que o menor movimento em seu corpo diminuía suas funções vitais. Ela teve que ficar imóvel. Não queiram ver o que acontece as costas, quando ficamos deitados por longo período sem se movimentar ou sem ser massageado.
Os médicos sempre dizendo que a qualquer momento ela poderia falecer, nos fazendo ir ao hospital as pressas diversas vezes pensando que ela havia falecido. A cada dia em que era avisado que "dessa noite não passaria", nós sofríamos. Mas ela lutou por mais longos 2 meses naquele sono forçado.
Akemi não perdeu para a doença. Esse vírus não conseguiu destruí-la em poucos dias como os médicos diziam. O vírus sucumbiu primeiro. Depois de muitos exames, diante de muitos médicos descrentes, foi confirmada que Akemi tinha ganhado essa batalha contra o vírus e só assim ela finalmente descansou.
AKEMI, A GRANDE GUERREIRA.
No velório o padre me pediu para ler um trecho da Bíblia. Subi ao palanque e comecei a ler na parte indicada e era justamente o versículo que eu havia lido naquele quarto de hospital. Olhei para meu tio e tia, olhei para as minhas primas... chorei. Chorei diante daquela multidão que se espremiam dentro da igreja. Continuei lendo e tive vontade de jogar a Bíblia na cruz atrás de mim. Não contei para ninguém sobre essa coincidência. E agora estou aqui, digitando.
Não sei se alguém irá ler essa história. Não sei se alguém passará a ter fé. Só sei que perdi a minha fé.
Não sei se alguém irá ler essa história. Não sei se alguém passará a ter fé. Só sei que perdi a minha fé.
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